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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Mi Buenos Aires Querido!



Quanto tempo que não blog, que estou com saudades dos meus amigos aqui. Obrigado por todas as mensagens recebidas no meu ultimo post que faz um tempão mas eu estava precisando de umas férias merecidas.

Eu não sei se acontece com quem está lendo agora, mas chega um momento que o trabalho não rende. Eu fui muito “workaholic” e acabei acumulando duas férias e mais outras duas que não tirei inteira. Isso faz mal, se você estiver fazendo isso, pare já!

Mas não estou postando hoje para falar das mazelas de férias não tiradas e do stress todo que acumulei nesses anos todos, esse vai ser outro post no futuro.

Quero compartilhar a grata surpresa que tive ao visitar Buenos Aires. Claro que tive uma ajuda ENORME da dona do Blog atitude que me deu dicas ótimas sobre a cidade e sobre lugares para ir e os “macetes” todos para fazer um turismo seguro.



Buenos Aires é uma cidade linda, limpa, com uma arquitetura super bonita, com avenidas largas e arborizadas. Lugares e passeios ótimos, muito vinho, gente bonita e preços relativamente bons! Difícil ter que dizer, mas a Argentina me surpreendeu e eles têm do que se orgulhar. Mas eles sabem que “se acham” mais do que o resto da America latina e estão mordendo uma corrente porque o Brasil está com uma economia estabilizada.

Quarenta por cento do turismo deles vem dos brasileiros (dados da revista Veja). Estava eu belo e formoso andando pela Calle Florida, uma tradicional rua de lojas com muitos turistas onde os “camelôs” locais oferecem shows de tangos e restaurantes da região quando um cara vendendo não sei o que, me abordou falando em inglês. Por certo me tomou por turista que não fosse latino americano. Ele perguntou:

- Hi there, where are you from?

Eu respondi, Brasil!

Ele transfigurou e disse: - Queria que a Argentina estivesse tudo muito caro para nenhum Brasileiro pisar mais aqui!

Enfim, uma demonstração de racismo e preconceito que eu jamais havia provado! Admito que me fez refletir a situação toda. Fiquei incomodado, mas conformado pois afinal nos somos mais de 190 milhões e devemos ter um numero muito maior de brasileiros maltratando Argentinos.

Em contra partida, varias demonstrações de civilidade e educação, tiraram essa imagem. Varias vezes minha esposa teve o lugar cedido no metro por alguém que estava sentado (claro que perceberam que éramos turistas). Varias vezes abriram a porta dando a vez para ela passar. Então mais créditos do que débitos no período que lá fiquei.

Um passeio que recomendo para quem quer visitar uma cidade agradável com bons vinhos e bons restaurantes (apesar que sofri para entender o cardápio deles), mas esse assunto vai para outro post.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Miami Beach III


O circo estava armado... meus amigos brigando na pista de dança, o garçon cobrando a conta, todos bêbados e a polícia chegando! Foi quando o Mexicano me perguntou o que estava acontecendo e eu disse: O gerente está duvidando da nossa capacidade de pagar essa conta. Eles querem nos colocar para fora. Nunca tinha visto um mexicano ficar tão afrontado. E eu servindo de tradutor para o gerente que já estava do nosso lado.

O Mexicano não se deu por rogado! Sacou do bolso um pacote de notas de U$100,00 enroladas com um elástico e contou 7 delas e entregou na mão do gerente. E ainda bravatou: - Nós não somos caloteiros não. E eu concordei com ele e falei para o gerente pegar o dinheiro porque íamos embora.

Nesse momento, tudo meio embaçado, comecei a ver luzes de lanternas vindas em nossa direção. Uma, duas e três luzes se aproximavam e policiais estavam segurando as mesmas e já foram perguntado:

- Who speaks english here?

Eu falando bem “mole” disse aos policiais, que éramos turistas, que estávamos somente tentando nos divertir, que a situação tinha ficado fora do controle porque um dos nossos amigos foi paquerar uma moça que estava acompanhada. Daí o motivo da briga.

Eles foram muito legais e pediram para que saíssemos e voltássemos ao hotel. E todos concordaram que já era hora de ir embora. Quando chegamos do lado de fora, umas 5 viaturas de polícia com suas luzes azuis e brancas piscando nos esperada do lado de fora.

Os mexicanos pegaram sua BMW (mesmo bebados) e chamamos um taxi para completar a lotação e seguimos escoltados pela polícia até o hotel que estávamos ficando. Chegamos ao hotel e ainda demos muitas risadas e continuamos nos divertindo muito aquela noite. Até que fomos dormir. E eles prometeram aparecer no dia seguinte.

Acordamos com muita ressaca. Mas tínhamos feito dois bons amigos e divertidos. Durante aquele dia eles não deram as caras. E tínhamos um telefone deles que não respondia. Ligamos naquele dia e no próximo e os dois simplesmente desapareceram.

Eu iria sair por três dias para ir até Orlando para os parques da Disney, e parte da turma iria ficar no hotel e eu os veria quando voltasse de Orlando. Mas ainda me intrigava o fatos dos dois rapazes simplesmente terem desaparecido.

Quando voltei de Orlando encontrei a turma. E nem bem terminei de dar oi, eles me disseram:

-Marcão, você não sabe o que aconteceu aqui! Os mexicanos vieram aqui assim que você foi para Orlando. Bem eles são empresários mexicanos e naquele dia o México entrou em uma crise econômica e eles tiveram que voltar às pressas para lá, pois os bancos estavam confiscando o dinheiro dos clientes (algo que vimos acontecer aqui com o Collor) e eles disseram que tinham mais de dois milhões de dólares investidos.

Enfim, eles não poderiam continuar em Miami, mas deixaram um presente para cada um de nós, o cartão de visita deles com telefones de contato e a conta de hotel paga durante toda nossa estadia lá.


Claro que tudo passou por nossas cabeças, mas eles eram do bem. Estavam se divertindo de férias e nada melhor que acompanhar seis brasileiros “duros” e fazer a festa com eles. Até rolou certo “affair” de um deles com uma das meninas, mas coisa normal de “ficantes”.

E assim essas “férias” foram totalmente fora do comum de tudo que poderia esperar.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Miami Beach II


Saí de Bogotá as 5hs da manhã rumo a Miami, a viagem foi rápida e ao chegar nos USA segui para Miami Beach. Miami Beach tinha acabado de passar por um processo de revitalização e a maioria dos prédios tinham sido pintados no estilo que marcou os anos dourados de Miami Beach, o Art Deco. O que eu poderia resumir como: “tinta texturizada colorida, aplicada com rolo em toda a parede e até nos interruptores”. Meio simplista, mas o impacto é legal.


Miami Beach tinha muitos hotéis a preços muito baixos, existia até que uma disputa pela ocupação, e um quarto poderia ser fechado por semana por cerca de U$100,00. Quem conhece Miami Beach vai entender o que estou falando. O Lincoln Road era um deserto, poucas lojas funcionando e não tinha nada a ver com o glamour que é hoje.

Ficamos num hotel beira mar, muito grande e a quantidade de velhinhas que circulavam era incrível. Nesse hotel encontramos com outros brasileiros que também haviam feito o “esquema” de viagem pelos dólares e logo ficamos todos amigos, até porque, do nada apareceu uma garrafa de pinga para auxiliar na união.

Enquanto bebíamos na piscina do hotel, dois mexicanos que estavam por ali viram a animação e foram se aproximando do nosso grupo que estava composto por 3 homens e 3 mulheres. Logo se enturmaram e dávamos boas risadas, pois esse era o nosso único compromisso. Bebemos umas 2 garrafas de pinga e improvisamos umas caipirinhas. Estava muito calor e posso dizer que não queria outra vida.

Uma coisa eu tinha que ficar muito atendo, que era a questão de grana. Eu estava viajando com o dinheiro contado e não poderia ficar ali na dureza e teria ainda mais alguns dias pela frente. Mas para quem já tinha feito o trem da morte àquilo era o paraíso.

Os Mexicanos conheciam bem Miami e ao final da tarde estávamos enturmados como amigos de infância. Eles nos convidaram para sair à noite para uma Boate e todos sem exceção toparam.

Combinamos o horário e eles disseram que viriam nos buscar. Na realidade eles estavam encantados com as três brasileiras que estavam conosco. Elas também estavam no esquema dos dólares e eram muito bonitas. O que deixou os Mexicanos doidos para conhecê-las melhor.

As 20hs em ponto os dois apareceram no hotel. De banho tomado e todos arrumados e bem vestidos. Perguntamos aonde iríamos e eles disseram para não nos preocuparmos. Eles disseram que estavam de carro e iriam fazer duas “viagens” para levar todo mundo, pois não iríamos caber todos de uma vez.

Na porta do hotel tinha uma BMW preta novinha e esse era o carro deles. Todos nós nos entreolhamos e percebemos que os caras não eram “fracos”.

Quando chegamos à boate, era um misto de boate e restaurante e adega. Eles me disseram que naquele lugar o presidente do USA tinha ido jantar e tomado uma garrafa de vinho de U$ 50.000. Logo me veio à mente. “To ferrado” não vou poder nem tomar água aqui dentro.

A mesa estava feita, éramos em 8. O mexicano se adiantou ao garçon e pediu. Uma garrafa de Whiskey! Fui checar o preço U$ 220,00!



Claro que uma garrafa em oito não seria um estrago, mas essa garrafa secou rapidamente e logo veio a segunda e a terceira garrafa já não abaixava tão rápida, pois todos já estavam veio “altinhos”. E a conta também! U$ 660,00 em três garrafas de Whiskey e 8 latinos bêbados em um dos lugares mais caros de Miami Beach. Dançando e agitando toda boate.

Quando o garçon chegou para mim (que era o único do grupo que falava inglês) e disse:

- Mr. The manager wants you to check the drinks now! (o gerente queria que pagássemos aquelas bebidas). Nós teríamos que pagar toda aquela conta se quiséssemos continuar lá. Nesse exato momento uma briga começou no meio do salão e eu disse ao garçon:
- Why dont´t you worry about the trouble makers? (Porque não se preocupa com os arruaceiros)

- Sir, those are your friends! We called the police!(Senhor, eles são os seus amigos, nós já chamamos a polícia).

Foi ai que percebi que a coisa estava pegando.... (continua)

sábado, 18 de setembro de 2010

Miami Beach I


O Brasil passou por momentos que se hoje contarmos para alguns pode parecer uma coisa de louco. Na realidade pode até parecer mentiroso, mas muitas pessoas que lerem esse post poderão lembrar-se dessa época.

Nós vivemos uma época que a economia era uma loucura. Inflação de 3% ao dia, deixar dinheiro na carteira era mesma coisa que rasgar dinheiro. Usava-se cheque de forma indiscriminada, até para pagar um maço de cigarros.



A única moeda que dava um sentido a estabilidade econômica ou a um referencial de valor era o dólar. Então você poderia manter o referencia de quanto algo valia se mantivesse o preço em dólar na sua cabeça.

Mas o dólar subia desesperadamente todos os dias. Mas se uma coca-cola custava U$ 2,00, amanhã também custaria e assim por diante. Mas em cruzeiro um dia era Cr$ 500,00 no outro dia Cr$ 515,00 e no outro Cr$ 535,00. Loucura total.

Para manter o referencial você comprava dólares, quando recebia seu salário, parte deixava aplicado no banco (o chamado over night) e para uma reserva especial, você mantinha uns dólares. Mas não pense que se comprava dólar com facilidade. Tinha o preço do dólar oficial e o preço do dólar paralelo. Cada pessoa somente poderia comprar dólares pelo preço oficial um limite de U$ 1000,00. No paralelo o preço do dólar dobrava de valor.

Algumas agências de turismo faziam às vezes de agência de câmbio, o que não era permitido também. Porque compra e venda de moeda estrangeira somente estava autorizado pelos Bancos. Mas essas agências faziam o seguinte. Pegavam seu passaporte, lhe davam uma passagem para Miami, e dos U$ 1000,00 que você poderia comprar você somente comprava U$ 400,00 pelo cambio oficial. Alguém aqui tem dúvida que eu não entrei nessa???

Eu não tinha nada a perder, iria ficar 10 dias em Miami, não iria pagar a passagem, mas em contra partida somente iria levar U$ 400,00 e uns U$ 200,00 pelo preço do paralelo. Mas naquela época se você trouxesse um vídeo cassete que custava U$ 200,00 poderia vendê-lo aqui por U$ 800,00.

Para fechar a conta, vamos lá, eu ficaria 10 dias de graça nos USA. Você toparia?

Um amiga e o irmão dela toparam fazer o “esquema” o que iria deixar a estadia ainda mais em conta porque iríamos dividir o hotel em três.

A passagem aérea era pela Avianca, e teríamos que pernoitar em Bogotá. Uma oportunidade a mais para conhecer um país diferente. Chegaríamos de dia e o vôo para Miami seria somente na manhã seguinte. Legal dar um role na noite de Bogotá, na época a mais perigosa cidade para se viver na América Latina por conta do tráfico de droga.



Embarcamos para nossa viagem e quando chegamos a Bogotá um agente da Avianca já nos orientou: - Señores, tiene una buseta esperando para llevarlos al hotel.

A primeira pergunta que eu fiz: - Mas vão caber todos dentro de uma só?

Aquela noite em Bogotá foi pitoresca. Fomos orientados a não deixar nada de valor no Hotel e também não deveríamos levar nossos passaportes se saíssemos à rua. Acompanharam? Não era seguro deixar nada no hotel e nem tampouco levar conosco. O que não nos impediu de conhecer o centro de Bogotá, muito agitado até tarde da noite e patrulha da policia fazendo batidas policiais em todas as esquinas.

Não fosse essa viagem permeada de novidades o que iria nos acontecer em Miami naqueles dias seguintes era algo inacreditável..... (continua)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Trem da Morte X - Final


Lá estávamos nós dentro daquele trem lotado rumo a Machu Pitchu. Eu confesso que estava muito cansado. Por estar a mais de 4000 metros nos Andes, tem-se muita canseira e o ar muito rarefeito torna a respiração difícil. Já estava a mais de 25 dias viajando, comendo mal, dormindo mal e andando muito. Claro que mascávamos as folhas de coca para ajudar. Tomei muito chá de coca que é bastante gostoso e não vicia e não deixa “maluco”, ok? A folha de coca é muito usada e não tem nada de droga.

Eu não agüentava mais as pessoas me oferecendo coisas para comprar, até leitoa dentro do trem e quando o trem chegava a uma estação muitas cholas e cholos vendiam seus produtos do lado de fora do trem, oferecendo pela janela. Eram dezenas de pessoas, jovens, velhos e crianças. E eu fiz uma coisa muito feia. Hoje me arrependo disso, mas naquele momento foi uma pequena “vingança”. Eu estava sentado na janela do trem e as pessoas vinham oferecer seus produtos e eu demonstrava interesse pelo que vendiam e eles se amontoavam próximos a minha janela na expectativa de me vender algo, eu apontava para um e depois para outro, eu virava para dentro e falava: “eu não vou comprar nada! Só que tomar o tempo deles” Bem, confessei! Coisa feia pois os coitados estavam trabalhando, mas eles são tantos o tempo todos que você acaba ficando estressado com aquela situação.

Chegamos à entrada das ruínas e eu estava morrendo de fome. Lá não iria ter um Mc Donalds e nem uma lanchonete. Tudo era muito precário e comprei quatro pães e quatro bananas. Comi pão com bananas que foram fatiadas na minha boca. Eu estava realmente me tornando primitivo.


As ruínas de Machu Pitchu são incríveis, imaginar que ali viviam milhares de pessoas em sociedade organizada. Eles tinham um sistema de transporte e comunicação que permitia que tivessem peixe para comer mesmo estando muito distante do mar. Enquanto você anda pelas ruínas você se admira com a precisão das construções, realmente impressionante! Você acaba fazendo uma viagem ao passado, se imaginando vivendo naquele lugar, como seria. É emocionante.

Minha missão estava cumprida! Eu me sentia muito orgulhoso de ter feito essa viagem, de ter passado por tantas situações e provações que não deu para colocar nos posts. O que relatei foi o mínimo do mínimo vivido nessa incrível aventura. Fiz muitos amigos, me diverti muito. Aprendi muitas coisas. Os Incas fizeram história, aquele lugar é mágico! Mas eu também fiz minha história, com minha própria conquista.

Não encontrei o Eduardo e nem o Ype conforme combinado. O Eduardo deu noticias após duas semanas. O Ype continuou viajando por mais um ano pelo Chile, equador e descendo o rio Amazonas até chega ao Rio de janeiro.

Ao pegar o trem de volta a Cuzco, comecei a viagem de volta. O Roberto me acompanhou na volta. A Simone resolveu ficar mais uns dias, o seu ex namorado Carlos não tive mais noticias.




Que bom poder voltar para casa! Levei cerca de uma semana viajando direto! Quando cheguei a Campo Grande, eu só tinha o dinheiro da passagem, um pacote de bala “kids”. O Roberto que estava comigo, não tinha nem dinheiro para o metrô. Comprei dois pães e duas laranjas e aquela foi nossa alimentação durante mais de 15 horas de ônibus até São Paulo. Peguei o ultimo ônibus para Campinas a meia noite! E finalmente cheguei em casa com uma coisa que eu não tinha quando havia saído.... Uma experiência de vida que me fez enxergar a vida de forma diferente.

Sei que os 10 posts foram cansativos, mas obrigado pelos comentários, pelos elogios, pelas criticas e pelo carinho de cada um que acompanhou aqui pelo blog, um pouco do que é, ou melhor, do que foi o Trem da Morte!

Fim!



segunda-feira, 21 de junho de 2010

Trem da Morte IX - Motel Publico


Cuzco era a nossa ultima parada antes de seguirmos para Machu Pitchu. Nós tínhamos a opção de fazer a trilha inca a pé, que seriam 3 dias subindo, com um guia e acampando nos Andes! Varias ruínas dos Incas existem nessa trilha. Hoje em dia muitos mochileiros evitam essa caminho pelo grande risco de assalto. Realmente é a aventura da aventura. O Eduardo e o Ype se animaram bastante em fazer a trilha a pé. Eu passei o "programa" e combinei com eles que eles poderiam seguir a pé que eu os encontraria em Machu Pitchu em três dias.

Naquela tarde quando estávamos escolhendo um hotel, quem foi que encontramos na praça central? Simone a carioca que tinha o namorado cagão! Foi muito legal encontrá-la e não faltava assunto, pois cada um vive uma experiência diferente mesmo fazendo a mesma viagem.

Ela também estava escolhendo hotel e acabou ficando com a gente, nós escolhemos um bem no centro. Essa hospedaria era um tanto peculiar. Era uma casa bem velha e grande. E nenhum dos cômodos tinha portas. Eram vários cômodos interligados com muitas camas e você não tinha uma definida, você entrava e dormia na cama que estivesse desocupada e no cômodo que quisesse.

Deixamos nossas coisas trancadas em uma sala na recepção e fomos para praça central que é muito legal. Muitos cafés e restaurantes, com comida e cerveja barata e ficamos até tarde bebendo até que resolvemos voltar para dormir.

Quando entramos no hotel, ele estava com a lotação completa. E fomos procurando uma cama desocupada, foi quando percebemos que várias camas eram ocupadas por casais e eles ficavam cobertos “tipo cabaninha” e com os sons e movimentos típicos de um casal transando!
Conforme íamos passando, as “camas” paravam os movimentos de sobe e desce e paravam os gemidos! E percebi que ali, naquele local as pessoas faziam sexo na cama ao lado sem qualquer tipo de timidez! Para nós aquilo foi muito divertido e podemos chamar da popularização do motel! De manhã as camas estavam vazias, mas foi um entra e sai (de gente no hotel) a noite toda.

Eduardo e Ype alugaram os equipamentos e contrataram o guia e eu fiquei na cidade com a Simone e um outro colega chamado Roberto, um rapaz de São Paulo. Essa dupla iria comigo pegar o trem até as ruínas de Machu Pitchu. Após 3 dias fomos para estação de trem as cinco horas da manhã pois o trem partiria as seis horas.

Quando chegamos à estação de trem tinha cerca de umas 1000 pessoas para embarcar em um trem que comportava no máximo 250 pessoas. Não haviam assentos marcados (será que eu precisava ter informado isso ou estava meio que óbvio... rs... rs) E tivemos que nos “degladiar” para conseguir um lugar sentado e demos sorte e conseguimos sentar, mas o corredor estava tomado de pessoas em pé com suas mochilas ou malas, simplesmente tornava o transito ali dentro impossível. Pior que onibus lotado em São Paulo, ou trem no rio.
Quando olho para porta da frente, uma Chola com uma forma gigante na cabeça com meia leitoa assada, que ela estava vendendo o pedaço fatiado. E ela começou a tentar atravessar o trem. Eu não me conformava com aquilo. E o pior de tudo é que ela foi empurrando e conseguiu atravessar o vagão todo! Quem, àquela hora da manhã iria querer comer um pedaço de leitoa na mão dentro de um trem super lotado? Publico alvo totalmente errado!
O trem seguiria parando em varias estações e foi em uma dessas paradas que eu fiz uma coisa muito feia e que hoje me envergonho.... mas.... (continua)

sábado, 19 de junho de 2010

Trem da Morte VIII - CORRUPTOS



Quando saímos da hospedaria em Copacabana, seguimos a pé rumo à fronteira da Bolívia com o Peru. E descobrimos outra realidade, apesar de estarem tão próximos os peruanos são bem diferentes dos bolivianos. A fronteira cheia de “oficiais” que levavam nossos documentos para cima e para baixo até que “criaram” uma taxa de entrada que não existia. Corruptos baratos, cobraram para “facilitar” a entrada coisa de U$3,00, que era o equivalente a três noites de hotel ou umas 5 refeições. Apesar de indignados resolvemos pagar e atravessamos fronteira.

Do outro lado seguimos de “van” até Puno. Estávamos a cada dia chegando mais próximos de Machu Pitchu. Em todos os lugares os turistas mochileiros se encontravam e trocávamos experiências do que já havíamos passado.

Uma praça central em Puno chamava muito a atenção pela quantidade de venda de artesanato misturado com venda de comida ali oferecido. Eu e meus amigos estávamos sem dinheiro local e vários peruanos chegavam para nós e falavam “cambio señor?” e fizemos uma rápida cotação até que resolvemos trocar coisa de U$ 10,00, com esse dinheiro teríamos tranqüilidade para gastos, pois tudo era muito barato. Logo que fizemos a troca dos dólares pelos pesos a policia nos abordou!

“-Señor, ¿sabía usted que el intercambio de dólares de los EE.UU. en la calle es un delito?” Na hora congelamos! E os policiais com cara de poucos amigos disseram: “-Estás arrestado! Ven con nosotros.” Para quem fala inglês, não foi difícil entender que eles estavam nos prendendo (arrest = preso) e na hora o gosto metálico de bile subiu na minha boca. O Peru estava vivendo uma ditadura militar e nós parecíamos um prato cheio para eles nos esfolarem!

Seguimos aqueles policiais e nossas pernas estavam bambas sem saber o que iria nos acontecer. Chegamos à delegacia e nos levaram para uma sala muito horrível. Eles diziam: “-tenemos que hacer la investigación!” Eu argumentei muito com eles que não sabíamos o que estava acontecendo, (no Brasil uma época era proibido trocar de dólares fora das casas de cambio ou bancos também!). Eles falavam que era um delito, que teriam que aguardar o chefe de policia... bla bla bla... e puro terrorismo nas nossas cabeças. O Ype não entendia o que rolava pq imagine um holandês entender policiais corruptos.



Depois de um tempo dentro daquela sala, com policiais entrando e saindo, lembrei daqueles policiais da fronteira que eram uns corruptos baratos e perguntei: “-¿Y si pagamos una multa ahora?” Bingo! Chegamos a onde eles queriam. Dez dólares por cabeça e nos deixaram ir sem fazer a “investigação”! Foi cerca de uma hora de muita tensão e ficou barato para nos livrar daqueles policiais corruptos! Mas aprendemos a lidar com a “milícia” peruana, ficando longe deles.

Ficamos hospedados em um hotel muito, mas muito vagabundo. Nas camas a coberta era curta e que quando puxava para cobrir o pescoço o pé ficava de fora. Lutei a noite inteira para me manter aquecido. A porta era fechada com uma corrente e um cadeado passado por dois furos na porta! Mas a cidade tinha uma vida noturna agitada. No Peru tudo tinha que ser pechinchado e eu, odeio pechinchar. A cultura deles é de formar o preço conforme a cara do freguês.

Uns mochileiros nos deram a dica de ir para Cuzco de Van e disseram quanto haviam pagado. No dia seguinte contratamos a Van e o motorista cobrou um valor a mais, dizendo que era uma taxa. Eu dizia para ele: “- Motorista ontem ninguém pagou!” E ele fazia aquela cara de paisagem não entendendo o que eu falava, até que abrimos o dicionário e montamos a sentença: “- Maestro, Ayer nadie hay pagado!” Então, brasileiro que acha que fala espanhol e saiba que fica ridículo falar portunhol! E lá fomos para Cuzco e descobrimos como fazer sexo na frente dos outros! (continua)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Trem da Morte VII - Copacabana


La Paz foi uma ótima experiência e eu e meus amigos seguimos viagem para Copacabana as margens do lago Titicaca. Essa viagem seria feita de ônibus e durante o dia. Chegamos a rodoviária e o trem era aquela famosa jardineira, um ônibus do tipo dos ônibus escolares nos Estados Unidos.

A estrada para chegar ao nosso destino era totalmente sem asfalto e estávamos nós três e alguns americanos que acreditamos também tomaram muito leite e os reflexos (gases) começaram a aparecer dentro daquele pequeno veículo. Ficamos agonizando com o mal cheiro que vinha da frente e pelo que parecia a viagem seria mais longa do que imaginamos. Mas a cada novo ataque de efeito moral riamos muito!



O ônibus seguia a uma velocidade acima do que seria aceitável e estávamos muito tensos quando ouvimos uma buzina antes de entrarmos em uma curva. A estrada era de mão única, mas única mesmo, pois só passava um veículo de cada vez e antes de chegar às curvas os motoristas metem a mão na buzina. Não fosse isso perigo suficiente, tínhamos os americanos soltando gases feitos loucos, percebemos que o ônibus viajava rente a um precipício, e tivemos muito medo pois qualquer deslize estariamos mortos. Realmente era de apavorar qualquer um. Mas para o motorista aquilo parecia normal.

Quando chegamos a Copacabana após uma viagem muito tensa, muitos funcionários das hospedarias locais nos abordavam oferecendo suas instalações, foi quando acertei para o nosso grupo um preço especial, mas fiz questão de confirmar com o rapaz que o local tinha “baño caliente” e ele garantiu que sim e eu estava precisando desse banho.


Fomos andando até o local que parecia uma Villa espanhola, deixei minhas coisas no quarto e fui para o banho com toalha no ombro, e falei para o rapaz: “-Si el baño no está caliente no voy a pagar por el hospedaje.” Entrei no banheiro e era um chuveiro Lorenzetti. Liguei e aquela água quente começou a cair. Aquele banho era dos justos e fiquei uns 20 minutos relaxando após a tensão da viagem.


Quando sai meus amigos riam muito e perguntei o que estava acontecendo e o Eduardo disse: “-Marcos, o banheiro estava sem água e o rapaz ficou com tanto medo de você, que colocou uma escada até a caixa d’agua e ficou baldeando água do poço e colocando na caixa d’agua enquanto você tomava banho, e você demorou demais e o coitado não agüentava mais subir e descer a escada.” Até fiquei penalizado com o cara, mas eu precisava daquele banho!



Copacabana tem uma basílica da igreja católica, com obras de arte sendo destruídas pelo tempo, realmente lamentável. O lago Titicaca é o lago mais alto do mundo é muito bonito. No dia seguinte cruzaríamos a fronteira com o Peru (país só para não dar margens aos engraçadinhos), e seguiríamos até Puno, e tudo seria muito legal se não tivéssemos sidos presos pela policia peruana. (continua)

terça-feira, 15 de junho de 2010

Trem da Morte VI - CHOLAS


Já na estação de trem percebemos que estávamos em uma cidade grande. Nosso destino seria um dormitório de estudantes metodistas na cidade de La Paz. Eu precisava chegar lá logo, pois estava me sentindo um banquete para as pulgas. Elas estavam comendo melhor do que eu! No caminho, paramos para tomar café da manhã.

O lugar era simples e pedimos café com leite, pão e manteiga. O frio que estava fazendo era algo fora da nossa realidade de Brasileiro. Eu já tinha comprado um gorro e uma “chompa” que é uma malha feita de lã de Lhama, muito quente e apropriada para aquele clima. A garçonete chegou com aquele café com leite quente e cremoso. Devo confessar que aquele café com leite persegue meus pensamentos desde então. Simplesmente divino e maravilhoso! Eu e meus amigos seguimos para o albergue.

Logo nos instalamos em um pequeno quarto com beliches e então começou meu plano para eliminar as pulgas que estavam se banqueteando. Peguei um saco plástico com minha toalha de banho e segui rumo ao banheiro.

O banheiro era enorme, todo branco, um cenário de filme de cientista dos anos 50, e ai dei início ao meu plano. Comecei um “strip tease”. Explico, fui tirando peça por peça de roupa. E conforme eu ia tirando as peças eu batia aquela roupa na parede ou pia com toda força e enfiava dentro do saco plástico. Fiz isso até ficar totalmente nu! E entrei no banho, foi quando descobri que o chuveiro estava queimado! A temperatura devia de ser de uns 3 graus C. Tomei o banho mais frio da minha vida e voltei ao quarto somente enrolado na toalha. Bem, no final valeu a pena pois me livrei das malditas.

Andando por La Paz você tem duas opções, ou você sobe muito ou você desce muito. Pegamos uma avenida e começamos a subir. Muitos vendedores ambulantes na rua vendendo os mais diversos tipos de produtos. As cholas(os) (que são os índios andinos), usam aquelas saias coloridas e os chapéus coco, realmente eles fazem uma figura muito típica e vendem muitas coisas, mas o interessante é que ninguém (pelo menos naquela época) pedia esmolas na rua. A pobreza era tão equivalente a todos que não visualizamos tantos as desproporções.



Ao chegar ao alto daquela rua muito íngreme demos de cara com um rapaz segurando um papel com umas 10 agulhas de costura espetadas na cartela. Ele estava vendendo aquelas agulhas! Por conta dessa cena, eu e meus amigos ficamos nos perguntando, será que alguém que está lá embaixo e precisa costurar, se sujeita a subir toda aquela ladeira só para comprar a agulha do cara? Será que vendendo aquelas agulhas ele faz dinheiro suficiente para se manter! Essa seria somente uma das diversas pessoas que encontramos e nos fizemos a mesma pergunta.

Quando voltávamos para o albergue paramos em uma fabrica de chocolate e comemos chocolates recheados com pasta de amendoin, delicioso. Fizemos alguns passeios e fomos ao “Vale de La Luna” muito legal que parece o solo lunar!

Ficamos alguns dias em La Paz, próxima parada seria Copacabana as margens do Lago Titicaca, onde cruzaríamos a fronteira com o Peru, não sem antes colocar nossas vidas em risco de morte. (continua)

domingo, 13 de junho de 2010

Trem da Morte V - Andes


Após alguns dias em Cochabamba nosso próximo destino era La Paz. Isso significaria a subida de trem pelos Andes. Certeza de visual maravilhoso. Compramos as passagens de trem. Um trem bonito prateado com faixas azul e amarela. Dentro, os bancos eram para três pessoas e outras 3 sentadas de frente para você. Os joelhos ficavam batendo nos joelhos dos passageiros sentados a frente.

O Eduardo e o Ype disputaram a janela para aproveitar o melhor visual. Eu sempre prefiro o corredor. Seria nesse dia que eu entenderia o que era calafetação.

Conforme a noite foi caindo, o trem subindo a temperatura descendo e descendo. O trem não estava preparado para aquelas baixas temperaturas. O que quer dizer, não possuía calafetação que é o isolamento do externo para o interno, então as paredes do trem começaram a ficar congeladas e ninguém conseguia chegar perto da janela.

Aquele assento que parecia ser privilegiado, durante a noite mostrou ser tão gelado que era preferível deitar-se sobre uma pedra de gelo do que sentar próximo a janela.

O frio começou a ficar tão intenso que mesmo com nossas roupas, gorros, cachecol e dentro do saco de dormir não conseguíamos nos esquentar. Quem estava próximo a janela preferiu ficar em pé no trem do que sentar próximo daquele picolé. Foi aquele tumulto nos corredores.

Não havia posição para ficar, o trem subindo devagar e a tortura aumentava. Uma coisa estranha começou a acontecer. Coceira! Isso mesmo, comecei a sentir muita coceira no corpo, principalmente na região da cintura e só poderia ser uma coisa, pulgas!

Não seria de duvidar o fato de eu ter pegado pulgas, pois os lugares pelos quais já havia passado o mínimo a pegar seriam as pulgas. O fato de imaginar pulgas em meu corpo fez potencializar as coceiras. E como você consegue se coçar quando está cheio de roupas e luvas na mão?

Fazer essa viagem requer alguns cuidados e você deve estar preparado para eventuais problemas. Agora quantos jovens pensam nisso? Eu não tinha nem aspirina na minha bagagem. A única coisa que eu tinha me preocupado em levar foi um cantil e “hidrosteril” para esterilizar a água!

A noite foi longa, ninguém conseguiu dormir por conta do frio e eu por conta do frio e coceiras. Eu estava com muita fome e resolvi comer o ultimo lanche que minha mãe tinha preparado isso a mais de uma semana e não estava com a mesma cara boa de quando foi preparado, mas a fome falou mais alto e de sobremesa, “charge”!

A chegada estava prevista para seis horas da manhã e iríamos ficar hospedados em um albergue da Igreja que ficava no centro. E as pulgas estavam com suas horas contadas. Você sabe se livrar de pulgas? Bem nem eu, mas eu tinha um plano em mente! (continua)


quinta-feira, 10 de junho de 2010

Trem da Morte IV - JARDINEIRA



Chegamos a Santa Cruz de La Sierra, estávamos muito esbagaçados e a viagem estava ainda começando. Ficamos hospedados em uma igreja para dormir nos bancos duro de madeira. Tomei um banho frio e tentei lavar minha calça jeans! Total desastre, não tinha sabão e ficou toda mal lavada, partes azuis partes marrom, rsrsrs!

Foi legal conhecer a cidade. Eu havia levado 150 dólares para passar 30 dias viajando, então mordomia não tinha vez. Sempre que eu trocava U$5 dólares, eu recebia umas 100 notas devido à inflação do país.

Precisávamos ir até Cochabamba e o meio de transporte seria o ônibus. Compramos as passagens no “coche de luxo” e o ônibus sairia às 5 da tarde e chegaria de manhã do dia seguinte, por volta das 7hs. Quando chegamos à rodoviária fomos ao local de embarque e ai veio o susto! Na nossa plataforma encostou uma “jardineira” um ônibus com frente de caminhão e bancos que não reclinavam. Discutimos e brigamos que não era o que queríamos, mas não existiam outros “coches de luxo”, só aqueles.

Após a briga aceitamos embarcar, mas o motorista recusava-se a colocar nossas mochilas em baixo do ônibus e queria colocar em cima do mesmo. E não aceitamos por questão de segurança e resolvemos levar a mochila dentro do “coche”. E somente mais tarde descobrimos o motivo.

Na Bolívia eles vendem o espaço físico do acento, ou seja, você podia levar o que quisesse ali naquele banco. Ao meu lado sentou um senhor com um menino de uns 13 anos no colo dele. Na minha frente tinha cinco adultos apertados. Eu tive que levar a mochila no colo, pois o corredor também foi ocupado. A noite seria longa, pois o banco não reclinava.

Após umas 3 horas de viagem, já estava escuro quando o ônibus parou a beira de um riacho, ou seja, no meio da estrada havia um riacho e não tinha uma ponte para atravessar. Nisso veio um trator, amarrou uma corrente na frente do nosso ônibus e começou a puxar o mesmo pelo meio do rio para o outro lado. Pânico generalizado! E foi assim que entendi porque as mochilas não poderiam ir embaixo da condução, pois ficariam todas molhadas. Não acreditei que aquilo estivesse acontecendo. Fora essa travessia, teríamos mais outras duas que colocaria em risco a segurança de toda viagem. (no caminho de volta, nesse trecho fiz de avião por U$23,00)

A noite caiu e dormi apoiando os joelhos no banco da frente, mas durante a madrugada tive que descer os pés no chão, foi quando ouvi um grito! Eu havia pisado na cabeça de uma daquelas pessoas que estavam no corredor e que resolveu se esticar durante a noite, bem embaixo dos meus pés. Foi aquela gritaria para entender o que estava acontecendo.

Após uma noite tensa, chegamos a Cochabamba. E fomos para um albergue. Ficaríamos alguns dias para conhecer a cidade. A cidade muito bonita, pois sua arquitetura é dos anos 40, então parecia que tínhamos voltado no tempo. De lá, iríamos para La Paz de trem. Iríamos atravessar os Andes e essa SIM seria uma noite realmente a prova de fogo, ou frio. (continua)

terça-feira, 8 de junho de 2010

Trem da Morte III - WC's


Lá estávamos nós a caminho de Santa Cruz de Lá Sierra, seriam 35 horas de viagem com paradas a cada hora e meia ou duas. O vagão estava lotado, espaço suficiente para todos ficarem sentados ou circulando pelo vagão. Todos carregavam sacos de dormir e uma grande mochila.

Eu e meu amigo Eduardo e o Ype, resolvemos viajar em cima do trem. Não pensem que era difícil não. O trem vai devagar, e no topo dos vagões tem uma plataforma. Uma das cargas era de barras de aço, então era bem plano e conseguíamos ficar ali. Hora descíamos para o vagão em outra parada subíamos para o trem.

Nos vilarejos, muita miséria e pobreza. E fazer as necessidades fisiológicas (fazer cocô) tornou-se uma questão muito preocupante. Em uma das paradas iríamos ficar por cerca de 20 minutos, eu precisava muito ir ao banheiro e resolvi entrar na vila, com umas casinhas bem pobres e pedi para uma das famílias para usar o banheiro. E eles apontaram para o fundo da casa. Era uma fossa! Isso mesmo, um buraco no chão com umas tábuas e somente um buraco no meio, que eu teria que me agachar e mirar direto no buraco e tentar não cair naquele mundo de merda.

Fui usando do meu melhor equilíbrio, abaixei as calças e logo que me virei, dei de cara com a cabeça de um porco daqueles bem grandes, que estava enfiada pelas “madeiras” que faziam as paredes da casinha. Travei! Ergui as calças sai! Não consegui realizar meu objetivo.

Quando voltava para o trem, ouvi um barulhão vindo pela rua, eram alguns bois que estavam endoidecidos e atropelando tudo pela frente. Deu tempo para pular dentro do vagão e ele saiu.

Assim, que saímos, estávamos todos sentados no chão e eu conversava com Simone animadamente, quando o Carlos levantou-se e perguntou no melhor carioquês: “-Gente, quanto tempo teremos para próxima parada?” Quando ele ouviu que chegaríamos ao próximo vilarejo em mais de uma hora ele falou bem alto a todos:

“- Então vocês me desculpem, mas não vou conseguir segurar”. Lembrando que estávamos num vagão de carga, ele abaixou as calças na frente de todos, segurou de um lado da porta e pediu para um rapaz segurar a mão dele. Pelado, com a bunda pra fora do trem, ele fez ali mesmo as suas necessidades, mandando merda para o vagão de trás! A cena era quase que inacreditável, ver aquele sujeito sendo equilibrado pelas mãos de outro cara, enquanto mandava ver e suas partes balançando ao vento.

Aquilo revoltou Simone que assim que ele se aprumou, ela fechou o tempo com ele. Na frente de todo mundo, foi o maior barraco, falou que ele era um indecente, que se expôs daquela maneira, que era um porco e mais tantas outras coisas que namorada ofendida fala e terminou o namoro ali mesmo. Mesmo carlos tentando explicar seus motivos...rs...rs.

Naquele fim de tarde subimos eu, Ype e Eduardo e viajamos em cima da carga de aço, e quando começou a escurecer ficamos preocupados porque estavamos em cima do trem e na parada seguinte que já estava escuro e passavam das oito da noite, descemos para dentro do vagão.

Surpresa! Aquele vagão que cabia 50 pessoas sentadas, não comportava 50 pessoas deitadas. Ou seja, não conseguíamos nem chegar perto das nossas mochilas. Estava muito escuro e resolvemos pegar os sacos de dormir e voltar para cima do trem.

Deitamos de atravessado na carga e dentro dos nossos “sleeping bags” fechamos os zíperes e dormimos a noite inteira segurando na amarração da carga, preocupado para não cair de cima do vagão. Foi uma noite tensa e às 5 horas da manhã quando estava amanhecendo, abri o saco de dormir e o orvalho frio, misturado com muita poeira cobria nossas cobertas. (continua)

domingo, 6 de junho de 2010

Trem da Morte II - BOLÍVIA


“- Fique tranqüila mãe! Eu vou tomar cuidado! Sim mãe, eu peguei os lanches que a senhora preparou!” Minha mãe quase não acreditava que eu, Eduardo e o Ype estávamos as 8 horas da manhã na estação de trem em Campinas, para começar a famosa viagem pelo trem da morte até Machu Pitchu!

O trem não era nenhum trem bala, os bancos eram de madeira que pareciam carteira de escola do estado (dos anos 70 óbvio), e lá fomos nós! Sete horas depois estávamos em Bauru! De carro teríamos levado duas horas e meia. Mas a idéia era viajar com o mínimo de gasto possível. E em Bauru trocamos de trem para irmos até Corumbá MT. Vinte horas depois chegamos em Corumbá! Moídos de dormir no banco de madeira a noite toda. Aquela viagem não estava sendo tão divertida e estava apenas começando.

Atravessamos a fronteira, pronto, estávamos na Bolivia. Agora era pegar o trem até Santa Cruz de La Sierra, isso se os ferroviários não estivessem em greve! Chegamos a estação de trem e tinha cerca de 100 a 120 turistas estrangeiros, mochileiros, de todas as partes do mundo esperando para pegar o próximo trem que saísse para Sta Cruz! Fizemos bastantes amigos da miséria que estávamos vivendo. Tinha gente de todo mundo lá. E nós ficamos aguardando o fim da greve!

Fomos almoçar em uma feira de rua boliviana, o Eduardo arriscou um prato local! Língua de boi, na primeira mordida ele perfurou uma glândula com um gosto horrível, eu preferi os lanches que minha mãe tinha mandado e os chocolates “charge” (levei um saco enorme e até hoje não consigo mais comer charge de tanto que comi nessa viagem).

Tivemos que dormir aquela noite no chão da estação de trem! Um lugar sujo, típico de uma cidade bem pobre. Acordei, com um bêbado boliviano dizendo aos gritos no meu ouvido: “-Porque mi Hermano trabaja!” Dane-se ele e o irmão dele, afinal o que ele queria dizer? Que a família dele não era feita só de bêbados e vagabundos? Certamente era isso.

De manhã, um “oficial” deu a boa noticia! Dois vagões estavam sendo liberados para nós! Mas eram vagões de carga, daqueles que iam para os campos nazistas, que só tem uma porta grande de cada lado! Quando verificamos a ultima carga da “carruagem” tinha sido galinhas e o que não faltava eram penas e merda. E para conseguirmos entrar, fizemos um mutirão da limpeza.

Foi ai que conhecemos um casal de namorados, Simone e Carlos que eram do Rio de Janeiro e estavam fazendo essa aventura juntos. Até Sta Cruz de La Sierra teríamos mais 35 horas de viagem dentro daqueles vagões. Sem parada em qualquer tipo de local com banheiros, lanchonete ou coisas parecidas, somente vilarejos.

Essa viagem seria o cenário da maior briga de namorados entre Carlos e Simone, por um motivo muito inusitado. E lá fomos nós, cerca de 120 aventureiros em um trem de carga. Muita alegria e risada até a noite chegar. (continua)

sábado, 5 de junho de 2010

Trem da Morte I - INICIO


Quanto o telefone tocou algo me dizia que era para mim e não deu outra. “-Marcos! MarCOSSS!! É o Amauri querendo falar com você!” O Amauri? Pensei eu, ele dificilmente me ligava e fui atender.

“-Oi Amauri e ai que manda?” O Amauri começou a falar e falar que não entedia o que ele queria dizer, até que ele conseguiu acalmar e explicar o que estava acontecendo.

O Amauri estava na porta da igreja quando o dono do bar em frente chamou ele para ajudá-lo a conversar com um cara que estava lá, fazendo perguntas e não falava nem uma palavra de português. O Amauri tentou conversar com ele, mas ele também não entendia uma palavra. Aquele rapaz de 19 ou 20 anos com uma mochila enorme nas costas em pleno centro de campinas chamava bastante atenção. Eu tinha acabado de voltar do intercâmbio e fui a primeira referencia para o Amauri de alguém para conversar com o gringo aventureiro.

Bem, peguei o carro e fui ao encontro deles. Quando cheguei ao local encontrei um típico “back packer”, sabe esses europeus aventureiros, que põem uma mochila nas costas e saem para conhecer a Europa. Só que Brasil não é Europa! Campinas não é Milão, Roma ou Londres. Eu já tive muita vontade de fazer isso no passado mas, meu tempo passou! A Europa que tem infra estrutura para receber esse tipo de turismo, agora aqui no Brasil um turista desses corre sérios riscos.

O cara veio da Holanda e tinha descido no aeroporto de Viracopos, cerca de 20 kilometros do centro de campinas, veio andando e passando por todas as favelas possíveis e pela maior zona do baixo meretrício do interior paulista (Jardim Itatinga). Só esse caminho já era aventura suficiente para ele voltar para Europa com experiência para 10 anos.

Perguntei como ele se chamava e ele disse se chamar Ype (leia hiper) Botma e perguntei o que sabia de português? A resposta foi “zero”! Onde ia ficar? Ele não tinha idéia! Ele tinha trazido saco de dormir, panelas e uma calça jeans e pretendia ficar cerca de um ano viajando pelo Brasil. De cara percebi que o Ype era gente boa, liguei para minha mãe e ela liberou para leva-lo para casa.

Minha casa sempre foi muito movimentada, somos sete filhos e a casa muito grande e ficamos “preocupados” em deixar o cara sair sem destino e sem conhecer portugues então oferecemos para ele ficar uma semana em casa até ele se ambientar com o país. Logo descobri que era um cara divertido inteligente. Bem, eu com 18 anos tinha amigos saído pelo ladrão e saíamos direto para baladas.

O Ype foi fazendo amizades, aprendendo português e acabou ficando quase um mês em casa. Meu amigo Eduardo (que tinha feito intercâmbio comigo para Austrália) veio com uma grande idéia! Porque não juntávamos os três e íamos para Machu pitchu, pelo trem da Morte? E foi assim que começou nossa viagem. (continua)